segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


NEGRÍCIA
Por Marcio André dos Santos
* Na imagem, Aline Valentim, amiga-irmã cuja imagem inspirou o poema. 


Deitada no chão fazia-se chão, negrícia
Negra delícia... Epá, peralá com a malícia! 
É tecitura do infinito, forrou o céu
Um círculo circundada em cores (Quantos sóis habitam o amarelo meu Deus??!!)
Leveza dos pés, paisagem de almas


Teu corpo é puro firmamento
Abrigando galáxias, amassando o barro que a gente pisa
E nem vê, nem nota, nem surpreende, nem sente?
Quão inigualável és, deveras ser
Gestando estrelas
Dessas que lumiam longe
E nossos olhos quase tocam
Pois que é lonjura demasiada perto


É um baobá inverso, transverso, reconvexo
Transpassa meus versos como quem transpassa o tempo
E inscreve nele todas as letras
Africanamente
Negritando tudo o que balança e dança


Em sons fulanis, bambaras, wolofs
Em bantas miragens de aléns-aqui


Quem olha pensa até que vê
Mas nem está ali
Mora lá
Na curva de algum lugar
No vazio que não é nada
Já que cabe tudo


É uma deusa profanada em encantos
Da pele da cor do Nilo
Uma Nefertite toda fêmea, 
Felina, ferina, felicita
Cheia de tranças nagôs
E purpurinas
E capulanas moçambicanas, angolanas, atlânticas
Irmã-cúmplice da nossa mais
Transcendente esperança.


28/11/2011.

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