terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

New Experience, New Visions



Vivi neste último domingo uma experiência de ouro, única. Fui convidado pelo Pastor Reid, da Bethel African Methodist Episcopal Church, a assistir a palestra do poeta negro Haki Madhubuti. Seu assistente foi meu buscar em casa, Mr. Brett. Chegamos na igreja e o culto já havia iniciado, com cantos e orações, etc. Fomos direto ao terceiro andar, na sala do Pastor Reid, grande, com pinturas de temas africanos e quadros com famílias negras. Fiquei aguardando o momento da palestra junto com o poeta e educador Haki. Conversamos um pouco sobre literatura negra, falei da poesia negra brasileira, comentei que havia um importante grupo de escritores negros reunidos no Quilombhoje. Haki não conhecia o grupo e pareceu interessado. Minutos depois recebo uma bolsa de livros do escritor pelas mãos do Pastor Reid. Haki autografou todos eles, com dedicação e gratitude.

Descemos todos para a palestra. Naquele momento me senti dentro de um filme americano, parecia o filme do Malcolm X, de Spike Lee, em que a liderança religiosa está todo o tempo cercada de assistentes e guardiões. A Bethel African Methodist Church é uma igreja majoritariamente de negros, bem estruturada e organizada. Chegamos no salão principal e haviam cerca de 400 pessoas, entre jovens, crianças e adultos. Pastor Reid pediu para que me levassem para as cadeiras reservadas aos convidados. Beleza. Antes da palestra do poeta Haki, Reid falou sobre a importância da obra deste escritor, seus livros, ativismo na educação. Em seguida, sem com que eu esperasse, Pastor Reid disse que ali também estava um amigo do Brasil, que veio estudar na Johns Hopkins University, pesquisar black politics e ensinar português para ele. Nesse momento tremi. Levantei e dei de cara com a aquela multidão de negros e negras, batendo palmas, sorrindo para mim. Me senti realmente em casa, acolhido ali naquela comunidade de sentido.

Após a excelente palestra do poeta e educador, Pastor Reid dá continuidade ao culto e com voz suave porém forte, chama as mulheres para a frente do palco. Mulheres que queriam aceitar Jesus, restaurar suas vidas, como dizia. Várias mulheres negras foram até a frente do palco, algumas ajoelhavam e já desmaiavam, outras choravam compulsivamente. Naquele momento percebi que minha câmera havia ficado na sala do terceiro andar. Por outro lado, achei melhor mesmo tal esquecimento porque o que estava presenciando era um momento da mais alta intimidade de uma comunidade religiosa. Enquanto isso, o Pastor Reid rezava e falava uma série de coisas para aquelas pessoas e para todo mundo, falava de restauração e multiplicação, aparentemente o lema da igreja.

Pouco depois, chamou os homens lá na frente. Pediu para que cruzassem os braços uns nos outros, como uma corrente. A cena foi muito significativa para mim. Mais de 30 homens negros, de diferentes idades, de braços dados, rezando. Alguns choravam, outros se abraçavam. Pastor Reid explicou da importância da união e sentido comunitário entre os homens, contra as adversidades da vida etc. Pediu para que cada um contasse um segredo para o outro em gesto de consolidação do laço.

Como se não bastassem as cenas já extremamente fortes para mim, um homem de meia idade e duas mulheres, uma por volta de 25 anos e outra na casa dos 50, foram até o centro do palco e pediram para ser curados (foi isso que entendi, pelo menos). Pastor Reid inicia uma forte oração, todos com as mãos estendidas em relação a essas pessoas e o que se viu foram pessoas na platéia chorando, gritando, dançando, rezando alto, baixo, etc. Nos meus sentidos, tudo parecia confuso, diferente e encantador. Toda uma comunidade ali em louvor. Havia mais do que o aspecto religioso em jogo. Havia uma dimensão política implícita: o fortalecimento dos laços comunitários, do sentimento familiar, da idéia de união.

Ao fim, várias pessoas vinham até a mim e diziam how are you doing brother? Nice to meet you brother? Good to see you here brother? Etc. Ao sair da igreja notei com mais detalhe que o bairro onde fica a igreja era um bairro negro e bastante pobre. Pobreza por aqui se difere da “nossa” pobreza porque é mais oculta, mais dissimulada, ainda assim via-se casas abandonadas e sem reforma. De posse desta percepção pensei o quão é importante esse papel exercido pelas igrejas negras (black churches) no sentido de aumentar o poder comunitário. Não é a toa que as igrejas negras estiveram a frente do movimento pelos direitos civis aqui.

Enfim, me senti privilegiado. Estava realmente em casa, em minha família diaspórica. Agradeço ao meu cumpadi Rolf, pelos contatos iniciais.

7 comentários:

Kibe disse...

Márcio,

Cientista político atacando de etnógrafo politicamente envolvido e participante...

Legal o texto!

Abraço do Kibe.

Rolf Malungo de Souza disse...

Caro irmão, gostaria de ter compartilhado esta tremenda experiência.

Você leva muito jeito como etnógrafo.

Um abração,
teu cumpadi

Afrolatinidade disse...

Rapaziada, a base das ciências sociais em sentido lato é a observação participante, é a etnografia. Mas juro que naquele momento não pensei muito nisso não, simplesmente mergulhei naquele mundo. Abs

:: Soul Sista :: disse...

Márcio, que maravilha de experiência!!! Ano passado, tive uma emoção semelhante, mas menos intensa, porque não conhecia ninguém de lá, na "The united house of prayer for all people" no Harlem. Me emocionei pra caralho ao ver o povo todo "in saints" no culto de domingo. Vi que os gestos do candomblé baianos estavam ali muito presentes e que os instrumentos de sopro eram os atabaques deles. Tocavam fundo dentro da gente, batendo alto a marcação da fé, do amor, da melandolia e felicidade misturados. Lembro que na época não tinha blog, mas pensei em escrever nas anotações de viagens que faço. Só que por milhares de motivos não deu. Lendo seu texto, tudo aquilo voltou.
É o poder corporal e sagrado do Atlântico Negro!Eiaaaaa!!!!! Lindo Texto! Parabéns, irmãozinho!!!!! (Posso chamar assim, né, porque já te contei alguns segredinhos... rsrsrsrsrssrsrs)

:: Soul Sista :: disse...

Já ia esquecendo... Vc tem medidor neste blog? Se não tiver, te passo... Vc vai gostar!

Rogerio disse...

Oh irmão que experiência maravilhosa. Sua descrição foi belíssima. Deu para sentir a energia e paz que essa vivência te proporcinou.
Luz e paz para vc.
Grande abraço

Angelica Basthi disse...

Marcito, q maravilha. É engraçado isso, pois o seu relato por telefone foi bom, mas ler aqui a sua experiência com detalhes, foi melhor. Dá mais o sentido de experiência ùnica. Gostei da idéia do esquecimento... Esquecer é parte do lembrar... bjão