Após longo tempo lutando contra um câncer, Zeca Esteves ou, simplesmente, Zeca nos deixa. Lembro que cerca de um ano e pouco atrás, sem qualquer motivo especial escrevi para o Zeca para saber como estava. Foi ai que me disse que estava com câncer, já bastante doente e se tratando no Rio. Fiquei chocado. Um ano depois o vejo caminhando pela Cinelândia, com pressa. A surpresa foi tão grande que o abracei de repente e ele ficou meio sem graça. Percebi então o quanto estava magro. Sorriu pra mim e disse que não podia ficar mais porque tinha um compromisso. Mais uma reunião Zeca? Momento efêmero, porém vibrante e cheio de cores em minha memória, especialmente agora.
Zeca foi realmente uma figura extraordinária. E não digo isso para aumentar excessivamente seus feitos ou realizações. Como todos nós, Zeca também errou, se equivocou e tomou decisões erradas ou controversas em sua vida política, dimensão que quero sublinhar nesse texto. Entretanto, quero lembrar do Zeca como aquele militante aguerrido, insistente, convicto, defensor de uma sociedade sem racismo, sem discriminação racial, de respeito as diferenças de todos os tipos. Não sei exatamente onde sua militância política nos movimentos negros começou. Sei que Zeca foi um dos “cabeças” do movimento de pré-vestibular para negros e carentes na Baixada Fluminense (PVNC), um dos primeiros movimentos sociais a defender políticas de ação afirmativa, antes mesmo do termo se popularizar Brasil afora.
Ao mesmo tempo Zeca se confundia com o CEAP, uma das mais importantes organizações negras do Rio de Janeiro. Ali ajudou a formar outros tantos militantes negros e negras, em reuniões, encontros, dinâmicas e discussões políticas. Finalmente, Zeca foi uma figuras chave na administração passada da SEPPIR, sempre em defesa das políticas de ação afirmativa e outros vários projetos de interesse do povo negro.
Estou triste pelo homem que se foi, pela pessoa simples, sempre sorridente e comunicativa que era. Ao mesmo tempo me entristece a partida do Zeca político, o ativista, o militante negro. São de corpos e mentes como os de Zeca que são feitos o que chamamos movimentos negros. A pouquíssimo tempo atrás também perdemos outra grande referência dos movimentos negros do Rio Grande do Sul, Oliveira Silveira. Um dos idealizadores do dia 20 de Novembro como o dia Nacional da Consciência Negra, data hoje nacionalmente reconhecida, ainda que não devidamente investida de valor e respeitabilidade. Com distância de semanas, também perdemos Neusa Santos Souza, autora da mais importante reflexão sobre a subjetividade negra, Tornar-se Negro. Perdas irreparáveis, claro.
Zeca era o que podíamos chamar de “militante profissional”, acordava e dormia militante, respirava movimento negro. Militante profissional aqui não vem com a carga pejorativa que eventualmente o termo carrega e sim com a idéia de alguém que dedicou sua vida à luta pela causa negra. Sim, ainda há uma causa negra a qual lutar e dedicar à vida!! Existem muitos outros Zecas, Neusas e Oliveira Silveiras nas fileiras dos movimentos negros, dedicando tempo e energia para mudar a história de injustiça desse país.
O grande problema é que o tempo para formar pessoas como essas, investidas de bravura, determinação e lealdade a população negra é demasiado longo e esses mesmos movimentos negros não tem sido capazes de mudar isso. Sejam pelas dificuldades impostas pela supremacia branca e pelas desigualdades raciais que historicamente tem impedido com que jovens negros e negras se embrenhem na militância, sejam porque nossas lideranças, de norte a sul do país, não tem desenvolvido instrumentos suficientes para atrair os mais jovens e espalhar a “consciência racial” nas ruas, favelas e universidades. No geral, os movimentos negros continuam a expressar os anseios de elites políticas e sociais negras – cuja contribuição é inegável -, porém sua incapacidade de chegar até a essa “base negra” (os outros 99% que vivem nos bairros pobres, sem estado e sem lei e na zona rural) de participar de suas decisões e deliberações tem atrasado seus avanços. É necessário reconhecer isso, creio.
Com Zeca, Oliveira Silveira e Neusa perdemos também em qualidade de intervenção, seja no campo literário, seja na psicologia ou na construção de políticas públicas em prol da nossa gente. Não quero ser fatalista e nem creio ser o momento para isso, porém precisamos refletir mais profundamente as sementes que estamos plantando e as que estamos deixando de plantar para as futuras gerações de ativistas negros e negras que vem por ai. Tudo indica que o racismo estrutural não vai ceder suas bases, ainda que incontáveis conquistas tenham que ser creditadas aos feitos dos movimentos negros nos últimos anos, em especial aos seus militantes. Cada contribuição deve contar e contará para a luta contra o racismo. Nossos Zeca, Oliveira Silveira e Neusa Souza fizeram sua parte. Cabe a nós continuar o trabalho. Com amor e determinação também... apesar de tudo.
4 comentários:
Realmente os últimos meses tem sido de grandes perdas para a população negra como um todo no Brasil. Não conheci Zeca, nem Oliveira Santana, mas sei da importância do último na criação do 20 de novembro e cheguei a ser apresentado a Neusa Santos e seu trabalho.
Há dois anos atrás o brother Luis Orlando, cineclubista e militante do movimento negro em Salvador, também foi levado por um cancêr. Ano passado foi a vez de Penha. Mulher negra que fazia parte da associação Fala Negrão em SP, atuava como militante negra e feminista e ainda fazia parte da escola de samba Leandro de Itaquera, também sucumbiu a um cancêr.
O que me deixa mais triste nessas mortes é que elas ainda refletem de alguma forma a precariedade que a população negra vive no que diz respeito ao acesso à saúde. Todos nós sabemos que as chances de ser bem sucedido no tratamento de cancêr estão diretamente relacionadas a descoberta dessas enfermidades nos seus estágios iniciais. Contudo, a maior parte dessas pessoas, devido a dificuldade de acompanhamento médico frequente, acabam descobrindo-o somente em estágios avançados.
No que diz respeito a Neusa, alguém já cruzou dados de morte por suicídio com raça no Brasil? Não sei, mas tenho suspeitas que o número não deve ser baixo.
Infelizmente ainda vivemos num país extremamente desigual.
Paz!
Disse tudo. Valeu.
Oi pessoal! sou irmao do Zeca Esteves. Me chamo Amarildo Rodrigues Esteves,mais conhecido por Amaral. Me sinto orgulhoso em ver varias pessoas em todo o país falando sobre a trajetória de meu irmao que acima de tudo conseguiu fazer muitos amigos por onde andou. Durante sua enfermidade visitei-o algumas vezes, ora em Brasilia,ora no Rio de Janeiro. Atualmente moro em Pinheiro no Maranhao, e, em dezembro/08, quando estava viajando para Bagé/RS nossa cidade, havia uma conexao do voo em que me encontrava em Brasília onde por coincidencia o Zeca lá estava. Foi a ultima vez que o vi,estava já muito debilitado,porém sempre esperançoso,passeamos pela Vila Natalina na esplanada dos ministerios,conversamos um pouco. Estivemos juntos por cerca de 3 horas. Devido á distancia e também por ter sabido do falecimento dele somente na manha de domingo,08/02 nao pude me despedir. Creio que aquela providencial conexao em Brasília e pelo fato dele ter ido a Brasília dar uma passeada foram traços que o destino escreveu para nos vermos pela ultima vez.
Quero aqui agradecer a todos que tiveram o privilegio de privar com ele e se solidarizaram conosoco. Não está sendo fácil,porém temos a certeza que em vida o Zeca foi o nosso grande herói e agora continua fazendo sua política por aí fora.
Como dizem os gauchos: Até a volta meu irmao!
Márcio, mais uma vez, as minhas esperanças se renovam ao ler um texto da sua autoria. Não é comum, entre nós, distinguir as eventuais divergências que temos em relação às pessoas do reconhecimento da contribuição política das mesmas. Conheci o Zeca em 1998, na campanha “Ivanir dos Santos para Deputado Estadual”. Trabalhamos juntos, por indicação do Ivanir, na equipe do então Secretário de Estado de Direitos Humanos, Abdias do Nascimento, em 1999. Voltamos a ter uma convivência mais intensa quando ele foi Chefe de Gabinete da Wânia Sant`Anna (Secretária de Direitos Humanos) e eu Assessor Especial do Gabinete da Governadora Benedita da Silva, em 2002. Nesta época o Zeca foi um dos negociadores do Governo em uma rebelião na qual eu, Sidney e Carlinhos ficamos retidos, como reféns, no Padre Severino. Zeca e eu nos afastamos politicamente quando ele foi para a SEPPIR, em 2003. A nossa amizade não foi abalada, embora as posições políticas tenham ficado nítidas. Ao longo deste período eu me hospedei na casa dele algumas vezes, em Brasília. Em 2008 fui convidado pelo atual ministro, Édson Santos, para integrar a equipe da SEPPIR, após a saída da ex-ministra Matilde Ribeiro. Reencontrei o Zeca, já doente, lotado no órgão que fui dirigir. A SEPPIR não tem estrutura, todos os cargos são importantes. Zeca estava no final de uma licença médica. Ele queria voltar a trabalhar e fez questão de marcar uma “audiência” comigo. Não me preparei para conversar sobre trabalho, queria saber sobre a saúde dele, sobre a sua família, sobre os filhos que conheci quando crianças. Fui surpreendido com uma pauta imensa, cuidadosamente preparada, toda ela focada no trabalho que ele havia desenvolvido na SEPPIR, desde a sua criação, e nas suas propostas para o futuro. Disse a ele que a prioridade naquele momento era a sua saúde. Ele riu e respondeu que a saúde dele já era e que a prioridade deveria ser a minha saúde porque eu também tinha o hábito de não almoçar e fazer longas jornadas de trabalho. Zeca me disse algumas coisas neste dia, dentre as quais a seguinte: “companheiro, continue o nosso trabalho porque se a SEPPIR não tiver êxito todo o nosso sacrifício terá sido em vão, a distância dos filhos, a perda dos amigos...” e vai por aí. Recolhi o material que ele levou e as anotações feitas de próprio punho. O tempo dirá se eu honrei, ou não, o pedido e o voto de confiança. Havia pressão e disputa pelos cargos do órgão, conversei com o ministro a respeito da situação do Zeca e o Édson disse (e cumpriu, não apenas em relação ao Zeca) que ele não seria afetado, de forma alguma, com as mudanças. Zeca, efetivamente, nunca mais voltou a cumprir expediente na SEPPIR. Fui visitá-lo uma vez, nos falamos por telefone algumas vezes e ele foi a SEPPIR outras tantas. Zeca foi servidor da SEPPIR, lotado na Subsecretaria de Políticas de Ações Afirmativas, até a morte. Eu saí da SEPPIR pouco tempo depois. Tenho orgulho de ter conhecido o Zeca, de ter trabalhado com ele, de ter divergido dele e de ter sido seu amigo.
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