Marcio André dos Santos
02/20/2009
A experiência do exílio se dá quando uma pessoa se vê forçada a abandonar seu país, geralmente por meio de perseguições políticas, religiosas e ideológicas. Não é raro encontramos usos outros para esta palavra. Por exemplo, alguém que se exilou devido a insatisfações políticas e sociais em seu país.
O auto-exílio, como o nome diz, tem mais semelhanças com este último tipo. Alguém resolve se afastar de seu país por não mais encontrar ali motivos que o façam viver em paz. Ou que devido a um conjunto de situações adversas, resolve-se morar em outro país para melhor entender a sua realidade e intervir nela. É diferente da experiência de imigração, onde a principal razão é a busca de melhores oportunidades econômicas.
Penso que a experiência do doutorado sanduíche é um tipo de auto-exílio, especialmente para intelectuais negros como eu. A pós-graduação no Brasil é um lugar para pouquíssimas pessoas. O doutoramento é ainda mais elitizado e restrito. Devido a ordem racial brasileira, em que brancos estão no topo e negros (pretos e pardos) na base da pirâmide social, ser doutorando e negro significa estar batendo no “teto de vidro” a todo instante. Essa experiência de exceção é esquizóide e liminar para muitos de nós, cuja linguagem e visão de mundo sofrem transformações que muitas vezes nos isolam de nossos contextos originais (família e amigos). É tão raro ser doutorando negro no Brasil – ainda que isso esteja mudando em ritmo lento – que, quando alguém entra em um programa de pós-graduação é motivo de festa. E tem que ser mesmo, já que um processo inevitavelmente comunitário, coletivo. Não que para um branco não seja ou deva ser importante, porém para nós o sentimento de exclusividade é simultaneamente inspirador e decepcionante. Inspirador porque temos consciência de que estar no doutorado ou no mestrado é mostrar para outros negros e negras que isso é perfeitamente possível. Decepcionante porque possivelmente não teremos outros pares com quem compartilhar essa experiência vivida e perspectiva intelectual comum nesses espaços. Sim, este tem sido ainda um grande problema entre nós: encontrar uma linguagem, uma epistemologia que atenda as nossas aspirações. E ainda mais decepcionante porque sabemos que não haverá igualdade de condições de acesso a esse lugar enquanto políticas de inclusão racial do tipo ação afirmativa não for implementada de modo constante, acelerado e generalizado.
Portanto, o auto-exílio para mim não significa uma experiência negativa. Pelo contrário, significa uma excelente oportunidade de crescimento intelectual, profissional e pessoal. Cabe sublinhar que isso só é possível com o auxílio essencial do governo brasileiro. Certamente existem muitas limitações na política de bolsas e fomento a formação superior no Brasil, entretanto o acesso a bolsa garante que nos aventuremos no exterior em busca de melhores oportunidades de trabalho no futuro (tudo bem que contando as moedinhas...).
Por outro lado, penso, o doutorado sanduíche é ou deveria ser visto como um agir político por estudantes/profissionais negros. Por quê? Exatamente porque devido ao nosso caráter de exceção, de estarmos ilhados no conjunto dos pos-graduandos do Brasil, a cobrança que exercemos e que é exercida sobre nós não permite uma postura de passividade. Pessoalmente, pretendo aproveitar toda essa experiência para auxiliar no treinamento de outros cientistas sociais e estudantes interessados em relações raciais, movimentos sociais, movimentos negros, etc. Lamentavelmente, não tenho observado crescimento substantivo de experiências acadêmicas especificamente preocupadas com a formação e treinamento de estudantes negros, da graduação a pós. O Fábrica de Idéias, feito pelo CEAO da Bahia, continua sendo um dos poucos espaços em que isso acontece, sempre com dificuldades orçamentárias, porém com grande empenho.
Auto-exilar-se é então um devir necessário a condição de intelectual negro diaspórico. Oxalá sejamos capazes de mudar a iniqüidade racial existente no ensino superior no Brasil e legar as próximas gerações mais espaços de intervenção acadêmica, para além das ciências humanas, rumo as engenharias, informática, medicina, administração, genética, etc.
3 comentários:
O primeiro cara que eu ouvi (li) usar esse conceito de "auto-exílio" foi Abdias do Nascimento, ao se referir a sua vinda para os EUA em 1968. O engraçado é que ele, num artigo lançado no livro "Memórias do Exílio" de 1978 que era uma reunião de depoimentos de exilados políticos brasileiros vivendo no exterior, também afirma que sempre foi um exilado dentro do seu próprio país por ser negro e discriminado. O Abdias é divertido!
Pois é meu, doutorado sanduíche: hora de fazer contatos, aprender outra língua e outra cultura, mas se não for bom no controle da grana fica comendo só sanduíche... *rs*
Abraços,
Kibe.
KKKK,
eu acabei de postar no meu blog um textinho sobre o exílio, mas num outro tom, e que veio a mente por causa de um post do kibe, será que iss é algum tipo de trasmimento de pensação?
Márcio, parabéns pelo esforço. não é demais parabenizar. eu pretendo ir para califórnia Berckley. sou antropólogo e quero fazer um sanduíche em estudos pós-coloniais.
o que vc está estudando? abraço. sandro.
antropologias.blogspot.com
Postar um comentário