segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

“Maldição Africana” ou as muitas faces do racismo



Possivelmente estamos presenciando um dos piores momentos da história do Haiti. As conseqüências do terremoto sobre o país são, no mínimo, de dimensões bíblicas. A precária infraestrutura existente e os diversos esforços feitos por haitianos e a comunidade internacional ruíram junto com as edificações. Anos e anos de trabalho duro juntaram-se aos pós dos escombros.

Os mortos estão empilhados nas ruas, espalhando o cheiro da morte e da angústia por toda parte. Covas coletivas foram feitas nas proximidades da capital e a população sobrevivente perambula completamente faminta e atônita. Gangues de desesperados se reorganizam a fim de pilhar qualquer coisa que apareça. O cenário não poderia ser mais caótico. É o horror em sua face mais crua.

Em meio a tanta desgraça eis que jornalistas flagram o cônsul do Haiti no Brasil, um homem branco, dizendo em off que a tragédia que está ocorrendo com o povo haitiano é “boa para o país”. Boa? Será que ouvi bem? E mais: de que tal desgraça deve ser resultado de “macumbas” feitas pelos próprios haitianos. E, como se absurdo não bastasse, afirma que os africanos – todos eles, todos nós – carregam uma “maldição” dentro de si. Na visão do cônsul branco do Haiti nós, homens e mulheres negros, somos o Mal.

A declaração do cônsul tem um nível de gravidade elevadíssimo, absurdo. O racismo subjacente em sua declaração remonta a todo um imaginário propagado por séculos nas culturas ocidentais sobre os africanos e os povos não-brancos de todo o mundo.

A “maldição de Cam” é o mito mais difundido no mundo ocidental contra os africanos, seus valores culturais, simbólicos, civilizacionais. Na Antiguidade era partilhado tanto por europeus quanto por árabes, os primeiros a se beneficiarem com o tráfico de escravos para a região do atual Oriente Médio. Cam teria visto o pai deitado nu, Noé, que lançou sobre ele a maldição de que seus filhos seriam escravos dos seus irmãos e seriam “escuros como a noite”. Dessa maneira tem-se um dos argumentos teológicos da escravização dos africanos ao longo dos tempos e que no Brasil foi amplamente usada pela Igreja Católica a fim de justificar a opressão anti-negro.

A declaração do cônsul George Samuel Antoine reedita este imaginário, absolutamente racista, tosco, imprudente sobre a catástrofe que acomete milhares de haitianos e que, neste exato momento, ainda lutam pela sobrevivência, seja debaixo dos escombros ou implorando comida e água nas ruas.

O Haiti é um país majoritariamente católico. No entanto, as tradições religiosas ancestrais dos africanos desempenham um país importante no imaginário de todos. O Vodum, como o candomblé no Brasil, foi e tem sido um elemento fundamental no sistema de crenças desse povo. Afirmar isso não é o mesmo de avaliar se esta ou aquela prática religiosa é boa ou ruim. Pelo contrário, toda prática religiosa deve ser vista em uma perspectiva que a valorize antropologicamente, ou seja, em sua relevância simbólica e material para os crentes.

Portanto, junto com o racismo explícito na declaração do cônsul, tem-se também um profundo sentimento de intolerância religiosa que não devia se coadunar com nenhuma autoridade.

De maneira irônica ou totalmente criminosa este senhor deixa transparecer o pior do ranço colonialista desumano que alguém nesta posição é capaz. Esse cônsul não representa mais nada. Não é ninguém. É um impostor. O povo do Haiti merece dignidade e respeito, ainda que sob os efeitos dos ditames da natureza.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Condenados da Terra Haiti




Horror, desespero, tragédia. Qualquer uma dessas palavras não dariam conta da imensidão do sofrimento do povo haitiano neste momento. Porto Príncipe é uma capital destruída, completamente assolada pelo caos.

Como amplamente sabido, o Haiti é o país mais pobre das Américas. Tal pobreza sistêmica não pode ser entendida superficialmente. Primeira nação negra a conquistar sua independência na região, o Haiti deu ao mundo um poderoso exemplo histórico de resistência e liberdade. Entretanto, os imperialismos e colonialismos dos países ocidentais sangraram as riquezas e potencialidades desta pequena ilha década após década. Evidentemente que as elites políticas e econômicas haitianas tem grande participação no que o país veio a se transformar: subdesenvolvido, população com altos índices de miserabilidade, desemprego absurdo e eivado de corrupção.

A metáfora utilizada por Frantz Fanon descreve bem a situação do Haiti e de países caribenhos na atualidade. Os condenados da terra amargam ainda uma precária ajuda internacional que vem prometendo minorar a situação de calamidade social total. O racismo tem um papel importante em tudo isso. Os países ricos, majoritariamente de populações brancas e que enriqueceram com o tráfico de escravos africanos, puderam manter suas hegemonias em função da subordinação radical dos países periféricos de populações negras e indígenas. Basta olharmos para a história das relações entre países africanos e comunidade internacional para termos um simples quadro disso. Basicamente o mesmo se dá no caso dos países latino-americanos (Suriname, Colômbia, Nicarágua, etc).

Os terremotos que atingiram a capital não poderiam ser mais atrozes e terríveis. Instituições fundamentais ao funcionamento da vida estão sob escombros: hospitais, escolas, palácios governamentais, embaixadas. A ajuda internacional deverá ser grande a altura da tragédia, caso contrário milhares de haitianos perderão a vida presos em muros e paredes despedaçadas.

Meus profundos sentimentos e solidariedade ao povo haitiano.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Renovacao da Esquerda

A jornalista canadense Naomi Klein concede entrevista a Lucas Mendes do programa Milenio da Globo News sobre os rumos da esquerda na America do Norte. Autora do livro No Logo, Klein tenta argumentar que existe sim saida para o neoliberalismo e o cassino financeiro. Isso depende, claro, de iniciativas e acoes que se contraponham ao modelo economico vigente. Nao deixa de fazer consideracoes em torno do racismo.

sábado, 11 de julho de 2009

Civil Rights Movement e o Legado Cultural de Michael Jackson



Alguns analistas associam a morte de Martin Luther King, Jr. em 1968 com o próprio fim do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Certamente um exagero. Sua liderança e ativismo foram tão marcantes para a luta dos afro-norte-americanos – com repercussões significativas nos países da América Latina, especialmente no Brasil - que é fácil reduzirmos uma história densa e complexa a uma pessoa. Seja como for Doctor King, como é chamado pelos americanos, foi um ícone da luta pelo fim das barreiras raciais e pela promoção da justiça racial e seu assassinato fez surgir uma nova fase da luta. Um ícone não se produz artificialmente, seja ele dos campos político, literário ou social. É preciso que haja uma combinação entre história pessoal e dedicação integral a uma causa ou luta específica para que um ícone habite o imaginário social. Além disso, é preciso que transformações sociais e/ou culturais sejam produzidas a partir de suas ações ou que sejam fortemente inspiradas por sua trajetória. Tudo isso Dr. King fez.
Porém, não é sobre o ícone do movimento pelos direitos civis que este texto trata e sim sobre o ícone pop music mundial, Michael Jackson, morto recentemente. Vejo uma íntima relação entre estas duas personalidades, ainda que atuassem em esferas diferentes. Que relação é possível estabelecer entre o movimento pelos direitos civis e Michael Jackson? Existiria algum vínculo, alguma conexão entre ambos? Penso que sim.


Black Is Beautiful Para o Mundo


Michael nasceu em 1958, em um período de intensa turbulência racial e auge do movimento pelos direitos civis. Os conflitos entre brancos e negros tomavam as ruas dos grandes centros urbanos, as famosas riots (distúrbio, tumulto, agitação), gerando respostas governamentais e mudanças culturais no comportamento coletivo. Os Jackson Five foram formados no final dos anos 60 e início dos 70, acompanhando a efervescência política da sociedade americana a partir das ondas de protestos contra a Guerra do Vietnam e das vocalizações de outras minorias, como as mulheres e os gays. Joe Jackson, pai e empresário da banda, percebeu que o talento dos filhos poderia ser uma alternativa a vida difícil que levavam como classe trabalhadora negra. Perfeccionista, comandava o grupo com mãos de ferro, chegando até mesmo a espancar e humilhar os filhos caso errassem as coreografias. Os sorrisos das capas dos discos dos Jackson frequentemente ocultavam a dor que os levou ao estrelato.
Minha recepção das músicas dos Jackson Five e de Michael em particular só veio nos idos dos anos 80 e uma das coisas que lembro bem era o visual super descolado dos Jacksons. Todos com cabelo estilo Black Power, calça boca de sino e roupas coloridas e psicodélicas. Antes dos Jacksons outras personalidades negras do mundo da música já faziam a cabeça dos jovens negros, como James Brown, tocado incessantemente nos famosos “bailes blacks” em cidades como Rio de Janeiro, Salvador ou São Paulo. Brown foi um dos grandes responsáveis pela expansão da música negra americana no Brasil e na popularização do estilo Black is Beautiful, movimento cultural de valorização dos traços e herança africanos cuja influência foi marcante para a militância negra brasileira daqueles anos. Olhando retrospectivamente não acho que a imagem dos Jackson tivesse um apelo necessariamente político sobre a juventude negra – e nem era o propósito da banda -, porém com certeza ajudou na sedimentação de uma “cultura de consciência negra” generalizada, para usar o termo do sociólogo Amauri Pereira. Os “bailes blacks” serviam como espaço de aglutinação de jovens negros, ativistas políticos ou não, que vinham dos bairros periféricos das grandes cidades e que geralmente aproveitavam isso para se organizar politicamente. Por esta razão é que curtir e dançar as músicas de um grupo em que todos portavam um visual daqueles, de afirmação da negritude em pleno clima de exaltação da mestiçagem oficial brasileira não pode ser considerado algo fortuito.
O visual dos Jacksons refletia exatamente a ebulição político-cultural daqueles anos. Era o momento dos limites e esgotamento da filosofia da não-violência adotada pelas principais lideranças e organizações negras no âmbito do civil rights movement dos anos 60 e que foi substituída por uma resposta mais enérgica, “revolucionária” e desafiadora frente à persistência das desigualdades raciais e do racismo branco estadudinense. A radicalização do movimento a partir de novas lideranças como Malcolm X, Stokely Carmichael, Ângela Davis, Bobby Seale, Eldridge Cleaver e de organizações como os Panteras Negras, SNCC, CORE, UNIA apontava para a necessidade de mudar o comportamento visual, estético e cultural dos afroamericanos. Desde o Black Renascence (renascimento negro) dos anos 20 e 30 não se via mudança tão abrangente. A adoção de batas africanas, a recusa em alisar ou cortar o cabelo simbolizavam o desejo de se reconectar as tradições ancestrais africanas oprimidas e inviabilizadas pela supremacia branca.
Essa fase mais “radical” do movimento pelos direitos civis significou também um momento de críticas profundas ao capitalismo e a uma adesão ao marxismo por parte de muitos ativistas do Black Power. E contraditoriamente, neste período muito do radicalismo negro se transformou em uma defesa aberta de um tipo de “capitalismo negro”, como na descrição de Marable (2007). Uma das mais importantes conquistas do “tradicional” movimento pelos direitos civis além da equalização formal com os brancos foi às políticas de ação afirmativa em universidades e serviços públicos. Isso contribuiu para o crescimento substantivo de uma classe média negra urbana, com mais autonomia econômica e influência nos meios de comunicação e da política.

O Fenômeno Michael Jackson


Os anos passaram e os estilos musicais e culturais também se transformaram. A chamada “Era Disco” já não exibia as mesmas preocupações de ruptura que a geração musical anterior. Era mais estilizada e “descomprometida”, ainda que tenha mundializado mais fortemente a música negra no mundo. Já em carreira solo Michael Jackson mostrou ao mundo ao que veio. Seu primeiro disco solo Off the Wall de 1979 vendeu mais de 25 milhões de cópias e foi considerado um verdadeiro acontecimento musical já que suas canções permaneceram no alto da lista durante meses. Os álbuns posteriores também se revelaram sucessos de venda. O álbum Thriller de 1983 vendeu mais de 106 milhões de cópias em todo o mundo, sendo considerado um marco da indústria fonográfica. Além de exercer forte influência no mundo da moda e cultura urbana, este álbum inaugurou a era do videoclipe e mudou definitivamente a mídia em torno da divulgação musical. Nos anos 80, perdurava o preconceito racial nas rádios americanas que tocavam rock, voltadas para públicos brancos. Michael foi o primeiro músico negro que tocava na MTV com o videoclipe “Billie Jean”. O guitarrista Eddie Van Halen participou da canção “Beat It” fazendo com que rádios de rock ou rádios de brancos tocassem a música de um artista negro. Fato inédito.
Não preciso sublinhar o que isso tem de político. Michael não era e jamais pretendeu ser um porta-voz dos afro-americanos. Não era um ativista político da maneira em que comumente se compreende este termo. Muitos de nós nos perguntávamos o que se passava pela cabeça do gênio da pop music ao fazer sucessivas cirurgias no nariz e passar por processos de embranquecimento da pele. Seria mesmo vitiligo? Michael deixou de ser negro? Negou sua “raça” e sua história? É claro que Michael era negro, apesar de todo o esforço das redes midiáticas internacionais em transformá-lo em um “branco honorário”. Michael Jackson foi alguém de ultrapassar as barreiras e limites de seu tempo como ninguém. Inventou e sofisticou um estilo musical e conseguiu conectar gerações e pessoas do mundo inteiro, de todas as raças, etnias, religiões e classes sociais possíveis. É exatamente isso que faz de um ícone, ícone. É a capacidade de criar uma linguagem global em que todos se identifiquem e espelhem.

Outros Matizes do Político

O legado musical de Michael Jackson tem uma dimensão política incontestável. Contraditoriamente, tal legado tem íntimas associações com a indústria cultural e com o imperialismo cultural norte-americano que é perfeitamente perceptível em qualquer parte do mundo. Porém, este legado expressa a força e a capacidade de transpor barreiras de vários tipos, em especial as barreiras raciais. Jovens negros, brancos, asiáticos, latinos, de países tão diferentes quanto Japão e Guine Bissau, Porto Rico e Mongólia cresceram ouvindo e dançando as músicas de Michael Jackson e do Jackson Five. De certa maneira, todos pertencemos a esta rede, conectados a esta mesma fonte cultural, direta ou indiretamente. Isso é político. É a política feita com outros matizes. Este tipo de política pode não ter tido nenhum tipo de impacto direto na redução do racismo anti-negro, mas influenciou culturalmente aqueles que formularam e formulam políticas anti-discriminatórias.
No cerimonial fúnebre em sua homenagem estiveram presentes não somente artistas negros e personalidades, mas também lideranças da comunidade negra americana como o reverendo Al Sharpton e os filhos de Martin Luther King, jr. Todos ressaltavam a importância de Michael para a comunidade negra e sua relevância e influência para além desta. (Na verdade, Michael participou de campanhas humanitárias, como a famosa campanha de combate a fome na Etiópia, junto com outros 44 músicos americanos e que se tornou uma referência na metade dos anos 80). Antenados com esta conexão, a cobertura ao vivo da CNN exibia as reações dos afroamericanos em várias partes do país, sejam nas ruas ou reunidos nas igrejas negras.
Vivemos em um mundo em que “fenômenos” pops são fabricados na velocidade da luz e cujo “legado” não ultrapassa a capa de uma revista sensacionalista. No entanto, certas figuras são ícones pelo conjunto de sua obra artística e devido a sua irradiação para além de um campo específico de atuação. Também resultam de um determinado contexto cultural e político, não se ancoram em um vazio de sentido. Aquilo que cantam, que vestem, que compõem e que imaginam são expressões do mundo vivido, dos acontecimentos ordinários e extraordinários do dia a dia. Um movimento social nunca se expressa somente por ações políticas stricto senso. É movido também pelo dinamismo cultural do seu tempo. Por esta razão, Michael Jackson faz parte do legado cultural do civil rights movement, do mesmo modo que a história política dos afro-americanos tem em Michael um de seus mais criativos porta-vozes. Nos Estados Unidos e no mundo. Independente das limitações, bizarrices e contradições do homem Michael, ficará a lembrança de um gênio da música.

Referências:

Marable, Manning. Race, Reform, and Rebellious: The Second Reconstruction and Beyond in Black America, 1945-2006. 3a Edition. University Press of Mississipi. 2007.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Choque de Ordem ou Choque Racial? Qual Diferença?



A Polícia Militar do Rio de Janeiro é especializada em brutalidade, como todos sabem. Quando a população “alvo” são sem-tetos, desempregados e, sobretudo negros, ai é que sua fúria colonial vem à tona com toda força. Foi o que ocorreu na semana passada no centro do Rio. Seguindo determinação da juíza Claudia Neiva da 14ª Vara Federal Civil, a PM partiu para cima dos sem-tetos e de estudantes universitários com violência máxima, como se essas pessoas fossem marginais e não vítimas da marginalização sociorracial sofrida sistematicamente ao longo dos anos.



O tal “Choque de Ordem” do governo Eduardo Paes (apoiado pelo governo federal e estadual) vem se mostrando uma verdadeira limpeza étnica no centro da cidade. O governo federal havia prometido transformar prédios da União (como aquele ocupado do INSS) em moradias populares para famílias de baixa renda do centro do Rio. A ação das próprias forças estatais mostram que tal promessa carece de seriedade. Parece mais historinha pra boi dormir...



Pelas imagens feitas pelo O Globo e Jornal O Dia, os “alvos” diretos de tal violência são pessoas idosas, adultos, mulheres e crianças recém nascidas, praticamente todos negros. Tal coincidência não é fortuita. A história urbana do Rio de Janeiro mostra que os “choques de ordem” sempre estiveram voltados ao cerceamento, criminalização e paralisia política dos segmentos marginalizados. Fundamentalmente com a intenção de garantir mais espaços (imobiliários, comercias, etc) para setores das classes médias e altas, compostas em sua imensa maioria por brancos. Conseqüentemente, o “Choque de Ordem” em curso nada mais é do que a tradução contemporânea da ordem racial do passado, ou seja, manter populações pobres e negras no seu “devido lugar”: fora de condições mínimas de cidadanização. Lembremos o ensaio técnico recente dessa brutalidade, a “Operação Rio”, cujos resultados foram a expulsão pura e simples de moradores de rua e outros “indesejados”.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Adeus a Michael Jackson, Rei do Pop



Michael Jackson marcou gerações, disso ninguém duvida. Ainda criança apareceu ao mundo exibindo tremendo talento musical. Junto aos seus irmãos era o mascote e a figura-chave dos Jackson Five. Eu era criança, claro, mas lembro bem daquele molequinho negro, cabelo estilo “Black Power”, cantando “I’ll Be There”. Mais do que suas músicas, o que os Jackson Five e especialmente Michael me diziam naquela época era que ser negro era bonito. Simplesmente isso. Pode parecer pouco, mas para mim e muitos de minha geração aquilo soava como uma verdadeira revolução estético-comportamental. Lembro bem de meus primeiros passos musicais, quando meus tios me ensinavam a dançar com as músicas dos Jackson Five e James Brown. “Vai turlé, solta!”, dizia meu tio Joãozinho imitando os passos de Michael.

Na adolescência eu era um de seus muitos fãs e imitadores. Queria ser um ídolo também. Tinha até um grupo de dança baseado em suas performances. Eu, Alemão (Junger), Marcelinho, Cabeção (Marcos, meu irmão) e Washington formávamos o tal grupo. Nunca chegamos a nos apresentar em lugar nenhum, evidente, um bando de perna de pau. Porém, levávamos tudo aquilo a sério, cheios de paixão, ensaiando três ou quatro vezes por semana. Enfim, os Jackson Five literalmente faziam nossa cabeça, era nossa referência.

Em carreira solo, Michael Jackson simplesmente reinventou a pop music. O lançamento de suas músicas na TV eram um acontecimento familiar, comunitário, um fato social total, diria, já que todo mundo comentava no dia seguinte que tinha visto o novo clip do pop star e a molecada se vestia como o Michael. Alias, o próprio clip foi invenção de Michael. Quem não se lembra do lançamento de Thriller com seus aparatos tecnológicos que na época surpreendeu a todos? Eu devia ter uns 13 anos quando fui ao Pão de Açucar levado pelos meus pais. Tinha lá um concurso para ver quem dançava melhor Michael Jackson. Eu era muiti tímido, mas me senti compelido a ir lá e mostrar o que sabia. Perdi para um concorrente afro-americano. O moleque dançava bem melhor que eu, admito. Bons tempos..



Os anos passaram, outros astros apareceram, outros estilos musicais e a figura de Michael para mim se transformou somente em uma referência da infância e adolescência. Deixei de o acompanhar musicalmente. Só sabia de notícias suas através dos sucessivos escândalos, das bizarrices, da suposta negação da negritude. “Michael agora é branco”, todos diziam. Não lembro de nenhuma declaração do astro dizendo que não queria mais ser negro e sim que a mudança da cor da pele era devido a um vitiligo. E quanto as infinitas cirurgias para deixar o nariz “afilado”? Seu visível “embraquecimento” gerou tórridas discussões entre jornalistas, acadêmicos e muita conversa de mesa de bar. A negritude negada, suprimida, esmagada de Michael não pode ser compreendia sem com que antes lembremos o contexto político, social e cultural em que o astro cresceu. Era o tempo da afirmação das conquistas do movimento pelos direitos civis pelos afro-americanos, do aparecimento de uma classe média negra influente no mundo corporativo e que ditavam as modas da cultura popular norte-americana. Entretanto, os efeitos do racismo de séculos imposto pela supremacia branca ainda eram – e são – presentes na vida dos negros americanos e não tinha como ficar imune a isso. Além do mais, haviam as pressões familiares sobre o astro, o espancamento do pai, a “perda” da infância pelo trabalho excessivo, pelo sucesso, pelo assédio midiático precoce, etc. A história de Michael Jackson é reflexo da própria complexidade do seu tempo e da singularidade da cultura americana.

Sua decadência pessoal envolvendo os escândalos de abuso sexual infantil, etc, não foram capazes de apagar seu simbolismo diante do mundo. Não, não acho que Michael era um santo, um coitadinho ou uma simples vítima do capitalismo musical e do racismo estadudinense. Penso que Michael escolheu viver boa parte do que viveu e que ao mesmo tempo foi tragado pelo destino que lhe foi traçado. Contraditório, certo? Mas era isso mesmo. Michael era uma contradição em carne e osso, em talento e idiossincrasias. Um negro não-negro, um branco não-branco. Um gênio da música soul, um ícone do pop mundial. Sua morte marca a história do século 20 do mesmo modo que foram as mortes de James Brown e Elvis Presley.

Reações em Baltimore


Estava na biblioteca da Johns Hopkins lendo uma enciclopédia sobre a história dos afro-americanos ao lado do computador. Lia sobre os “black colleges”, ação afirmativa, afrocentrismo. De repente resolvi abrir o site da CNN, nem sei porque e lá estava estampado: “Michael Jackson is Dead”. Puts! Na hora imaginei que fosse alguma brincadeira, sensacionalismo midiático, sei lá o que. Comecei a abrir vários jornais americanos na internet e todos diziam a mesma coisa. Ai a ficha foi caindo aos poucos. Uma tristeza me subiu o peito. Olhei pro lado e havia uns 7 estudantes na sala de informática. Um chinês, duas brancas, um indiano e três afro-americanas. Uma das afro-americana tinha lágrimas nos olhos e estava com sua filha, uma menina de uns 7 anos. Saquei que ela sabia o que tinha acontecido. Ela passou por mim e me cumprimentou, triste. Depois voltou e continuou consternada olhando para o computador, lendo as noticias. Levantei e disse pra ela: Você soube o que houve com Michael? E ela começou a dizer o quanto aquilo era irreal, inacreditáve para ela. Ao falar ia perdendo as palavras, emocionadíssima. Disse a ela que era do Brasil e que tinha crescido ouvindo e dançando Michael e tal...

Depois disso, peguei a bicicleta e fui até o “bairro negro”, a uns dois minutos da universidade, para sentir o clima das pessoas. Parecia que a noticia ainda não tinha se espalhado, mas vários carros dirigidos por afro-americanos passavam tocando algum sucesso dos Jackson Five ou do Michael. Depois sentei e fiquei olhando o movimento das pessoas. Alguns pareciam saber o que tinha acontecido e outros não. De toda forma, havia uma aura de tristeza no ar. Um símbolo da cultura americana, da cultura afro-americana, tinha subido para o andar de cima. Perdemos o homem. Ficará o mito.

sábado, 16 de maio de 2009

Malandragens Intelectuais

Depois de anos distante Maurílio vai a casa de seus pais, no Lins de Vasconcelos, seu bairro de infância e adolescência, fazer uma visita. Comenta com sua esposa que muita coisa mudou e que estranhamente continuam as mesmas. A primeira pessoa que reencontra é Edmilson, chamado por todos de Nego.

- E ai Maurílio, cume que ta irmão? Pô, tempão hein..

- Podes crer Nego, tempão mesmo. E você, como está?

- To ai né mano? Na luta ai do dia a dia, mas ta tranqüilo. Pô, to sabendo que tu estudou a pampa né mano? De vez em quando esbarro com teus coroas ai e eles me falaram. Mó moral isso..

- Verdade. Fui fazer faculdade. Fiz ciências sociais e continuo estudando, agora ciência política.

- Pô, a cabeça deve estourar de tanto livro né não? Vai virar político né? Mas ai, acho maneiro, tu ta certo neguinho.

- Não é bem isso não. A idéia é estudar os modos pelos quais a dimensão política atua em nossas vidas, as transformações geradas pelas ações políticas e um monte de outras coisas. Mas me fale ai de você. Casou, como ta isso?

- Fechei com uma mina ali, de responsa mermo, ta ligado? Mas ai neguinho, to cheio de filho ai no morro, ta foda .. (ri)

- É mesmo? Quantos filhos ce tem?

- Pô, tenho quatro moleques ai. Tudo com mina diferente. Sabe como é né neguinho? Morro é foda. Um monte de filé dando mole a gente pega logo e ai é filho. Mas ai, ta tudo tranquilão. Sempre dou uma assistência a geral, sacou? Falta comida não.

- Isso é importante. E os trabalhos? Ta fazendo o que ai irmão pra ganhar a vida?

- Pô neguinho, tenho uns trampos ai, ta ligado? Tava com um trabalho fixo numa oficina em Madureira, mas ai o patrão resolveu cortar um montão lá. Disse que o fluxo de carros pra conserto estava secando, os clientes sumiram, enfim jogou esse caó pra cima da gente. Agora to ai vendendo umas paradas, mas ta tranqüilo, to levando...

- O importante é não parar e não dar sorte pro azar, sacou? Além do mais tem sido constante a redução de mão-de-obra hoje em dia no mundo inteiro, especialmente em países de economias mais frágeis como aqui na América Latina, infelizmente. Isso é devido a uma série de crises e transformações do sistema capitalista e do modo de produção que o sustenta, ainda que em constante mudança.

- Sistema o que?! Mano, que sistema que nada. Só sei que ta brabo, ta ligado? Esse é o sistema aqui. Tem um monte de mano ai no morro que ta sem trampo já a um tempão. Ficam ai o dia inteiro andando pra lá e pra cá sem fazer nada. Tem até uns que descem pro asfalto na tentativa de ver uma vaga, mas chega lá sempre inventam uma desculpa pra não contratar, ta ligado? Outro dia o Vaguinho tava dizendo que foi ver um emprego de (office) boy numa firma ali e chegou lá tinha um branquinho e mais um pretinho também na disputa. Só que o Vaguinho já trabalhou com essa parada um tempão. No final escolheram um o branquinho lá, bem mais novo que ele e sem experiência nenhuma. Pô, o Vaguinho ficou boladão mané. Mas ai, isso acontece direto com geral aqui.

- Entendo.. Cara, na verdade isso é discriminação racial. E no Brasil essa discriminação muitas vezes é sutil, entende? Os caras não dizem que não vão te escolher porque você é negro. Simplesmente escolhem o branco. É um problema sério esse. Pelo que me parece o Vaguinho tinha mais possibilidade de conseguir a vaga, mas ai devido a cor da pele, tipo de cabelo, enfim, devido ao seu fenótipo os caras não escolheram ele. Racismo, simplesmente. Isso é odioso.

- Pode crer neguinho. Eu mesmo já sofri esse bagulho ai de racismo, ta ligado? Alias, várias vezes. Aqui no morro mermo, ta ligado? Vira e mexe os canas param a gente pra dar dura. To até acostumado já. Nem faz muito tempo me pararam ali embaixo, tava tomando uma cerva ali com uns parceiros e os caras vieram fechando o tempo ai. Sem com que eu abrisse a boca, me deram um tapão no rosto. Pediram o documento e tal, dei, falei que era trabalhador e o cara não acreditou, claro. Perguntou onde eu trabalhava e quem era meu patrão. Falei que meu patrão era Deus e eu mermo, morou? Pô, o polícia ficou mais bolado ainda e chegou a destravar a pistola. Só que ai chegou um outro policial, tipo pretinho tipo a gente ta ligado, e mandou o cara ficar na moral. Mas ele me deu mais um tapão e me chamou de macaco filho da puta, de criolo e o escambau. Essas paradas revoltam mano, ta ligado? Humilhação...

- Puts!! Jura? Isso revolta mesmo Nego. Infelizmente tem sido assim desde o século passado. A polícia militar foi criada basicamente pra conter os pobres em benefício das elites e o racismo é o modus operandi deles. O discurso da manutenção da ordem serve muitas vezes para oprimir oprimidos e deixar bem tranqüilo quem manda no país. Linhas gerais, é isso o que acontece.

- Modos o que?! Mano, sei que to cansado dessa porra. Toda semana tem polícia ai na área. Tudo bem que quando a gente era moleque também tinha, mas hoje em dia é demais. E eles entram nas casas das pessoas na maior marra, com o pé na porta mesmo e ainda xingam morador. E o pior é que eles não vem pra estabelecer ordem nenhuma. Pelo contrário, querem é o regalo deles, morô?

- Mas e o morro como é que ta? Me disseram que tem um monte de moleque ai agora no tráfico, é verdade?

- Um monte?! Tem até fila pra entrar no movimento. Morre um tem mais uns 10 esperando pra entrar. O bagulho é louco. Também tu quer o que? Os moleques não tem muita opção aqui, morô? So tem uma escola pública e mesmo assim ta uma merda. Professor não quer dar aula direito, vivem faltando. Não tem merenda decente, livros tudo velho. Emprego os caras não conseguem porque os patrão alegam que eles não tem experiência. E tu ta ligado que não é bem isso. Não contratam porque não gostam da gente.

- Sim, esse é um dos maiores problemas que temos hoje em dia, ou seja, a proliferação do tráfico de drogas ligado a uma total falta de perspectiva pra juventude. E o pior é que as poucas políticas públicas nesta área não chegam a todos os lugares. Sabe dizer se tem alguma iniciativa por aqui da prefeitura ou do Estado ligado a prevenção ao uso de drogas? Tem alguma ONG atuando neste sentido?

- On o que?! Que prevenção mano? Eles querem mais é que a gente se dane, que morra tudo ai na míngua, com a cara no asfalto quente. Nunca vi tanto crack como agora. Antigamente a rapaziada fumava um bagulho (maconha) aqui e acolá, mas tava tranqüilo. O cara fumava o bagulho dele e ia trabalhar, morô? Hoje em dia não. Os moleques pegam a pedra do crack, fumam e ficam na paranóina de fumar mais. Ai neguinho, é só pele e osso, ta ligado? Horrível mané!! E o pior é que nem tem como ajudar muito, eles ficam obcecados por isso. Outro dia soube de um moleque ali que esfaqueou o próprio pai porque queria vender a televisão de casa pra comprar mais pedra e o pai não deixou. Isso ta acontecendo direto aqui.

- É o fim.. Cara, isso me entristece demais. E o que me deixa mais puto é que pouco ou quase nada se faz, né não?

- Podes crer. Ta sinistro mesmo. Os caras se matam de bobeira. Semana passada mesmo morreram uns quatro ali no beco. Disseram que deviam ao traficante ali e o cara já não agüentava mais cobrar e resolveu detonar os moleques. É comum, é comum..

- E o pior Nego é que é uma geração de jovens que poderiam transformar a vida da comunidade. Os caras poderiam estar estudando, trazendo melhoramentos pra área, tipo incentivando a participação popular, cobrando políticas públicas ao Estado e tudo o mais. Tem comunidades em que isso ocorre...

- Pois é, mas não tem sido assim. Não vejo nenhuma organização fazendo é nada aqui. Pra ser sincero de vez em quando tem um pessoal ai da igreja que faz uns cultos ai pra fortalecer a rapaziada. Mas é só. Agora em época de eleição aparece um monte de político ai dizendo que vai fazer e acontecer pela comunidade. Depois que são eleitos somem. Cansei já mano. Cansei. Devem achar que a gente é tudo palhaço.

- É sempre assim, eu sei. Nas últimas eleições eu vi isso aqui. Voto ali na Macedo (escola pública). Cara um fenômeno!! Uma multidão de gente na rua fazendo panfletagem pros políticos de direita e de centro. Um tio meu mesmo estava fazendo panfletagem e ai perguntei a ele porque já que os caras não fariam nada pra melhorar o morro. E ele disse que era porque ganhava vinte contos (vinte reais) por dia. Ou seja, esse batalhão todo de gente trabalhando o dia inteiro pra ganhar 20 reais cada um.. E olha, que a imensa maioria eram de negros, como é comum aqui.

- Eu mesmo trabalhei nisso neguinho. Tu quer o que? Tem gente ai que ta comendo arroz com ovo, malandro. Não ta mole não. Com vinte contos tu já compra um quilo de carne de segunda, um arroz e umas fruta, sacou?

- Temos que ter dignidade e não ficar fortalecendo políticos que não trarão nenhum benefício pra gente.

- Pra gente?! Tu nem mora mais aqui neguinho! Além do mais, político nenhum traz benefício pra gente. Pra mim e pra geral aqui política significa roubalheira. É um bando de canalha mermo, ta entendendo? Eu sempre voto em branco. Foda-se todo mundo! Não acredito nesse sistema não.

- Cara, sei que a imagem pública dos políticos no Brasil é a pior possível e isso tem uma longa história. A política se transformou em uma via fácil de ganhar rios de dinheiro, de gerar corrupção e favorecer parentes, amigos e cumpadres. É uma vergonha mesmo. Mas a esquerda tem sido...

- Esquerda? Que esquerda mano?! Ai, na boa. Não estudei como você, mas não sou burro morô? Não tem nem esquerda nem direita nem nada. To careca de ouvir promessa de gente que se diz de tudo, sacou? Pô, todo mundo dizia que o Lula quando ganhasse as eleições iria mudar nossas vidas, lembra? Mudou nada. Eu continuo ferrado e fudido como todo mundo aqui. 35 anos e sem perspectiva.

- Compreendo seu ponto de vista, sua indignação e tudo o mais. No entanto, mudanças estruturais são demoradas e complexas. O governo Lula tem feito avanços substantivos em várias áreas: educação, tecnologia, relações internacionais, política racial etc. Inclusive com o governo Lula as políticas de ação afirmativa se fortaleceram como jamais vimos e isso pra nós, negros, é super importante.

- Ai neguinho, na boa. Não me interessa as tais mudanças estruturais, quanto tempo leva e tal. O que me interessa é se vou ter grana pra comprar o pão dos meus menino amanhã, ta ligado? Vai falar ai pra rapaziada que ta entrando no tráfico que as mudanças estruturais estão chegando, que tem ação não sei o que ai pra eles. Vão é rir da tua cara e depois te dar um tiro! A gente ta cansado de blá blá blá, de caó de político. Tenho mó respeito por você, mó admiração, morô mano, mas essa sociologiazinha ai não serve praqui não, pra entender nossa tragédia, morô? É tipo naquele rap, ta ligado? Essa porra é um negro drama total!

- Eu sei, eu sei.. Você ta certo. Há uma distância imensa entre o que se pesquisa nas universidades e os dramas do povo especialmente no campo das ciências sociais. Eu sei disso. Mas tem coisas boas acontecendo e tem gente querendo encurtar essa distância. Pense que seus filhos poderão entrar na universidade um dia porque agora tem políticas de cotas, saca? Isso porque o movimento negro brigou muito pra que isso fosse possível e...

- Movimento negro? Nunca vi nenhum movimento negro por aqui não xará. Já até ouvi falar na televisão, mas aqui esses caras não chegam. Dá uma olhada ali na boca. Tudo preto neguinho! Os maluco tipo eu e você assim, ta entendo? Uns mais escuros, outros mais claros, mas tudo preto. E cadê o movimento negro? Cadê o movimento negro pra fazer alguma coisa, uma palavra, dar uma moral pros moleque ai? Pô, esse papo ta mó derrota mermo.

- Cara, mas não é tão simples assim. Os movimentos negros também enfrentam uma série de dificuldades pra se estabelecer e conseguir agir na sociedade. Uma das grandes dificuldades dos movimentos negros tem sido a atuação nas comunidades, conseguir se estabelecer e criar alternativas frente ao tráfico.

- Tu quer dizer na favela né? Cara, esse bagulho de ficar chamando favela de comunidade é irritante, ta ligado? Pô, aqui o esgoto corre a céu aberto, só tem uma escola, não tem posto de saúde, tem um monte de rua sem asfalto, o estado que chega aqui é a polícia ai e tu chama isso de comunidade?! Isso é favela mano! A gente é favelado mermo, morô?! Tenho vergonha de falar não, ta ligado? Tenho vergonha é de ser brasileiro nessas condições. É disso que tenho vergonha.

- É que comunidade é um modo de mudar a imagem que se propaga das favelas e das pessoas que moram nela... A mídia chama favela muitas vezes para criar mais negatividade e isso se reverte em desassistência e mais preconceito aos seus moradores. Enfim, te entendo.

- E você, diz por ai que é o que? Um ex-favelado ou um ex-morador da comunidade? Com esse oclinho ai todo modernoso, ta parecendo doutor.

Maurílio não encontra palavra. Enquanto isso Nego ri.

- Difícil tudo isso hein.. difícil.

- Difícil mesmo. Por isso que não condeno que vai pro asfalto tentar a sorte (assaltar). O cara perdeu totalmente as esperanças, vai fazer o que? Todo mundo tem direito de querer ter um carro, uma beca maneira, sacou?

- Mas cara, não pode ser assim! Mudar a realidade não é o mesmo que roubar uma velhinha. Não é assim que funciona.

- Que roubar velhinha que nada?! To falando dos manos que descem pra arrebentar um banco. Quem guarda dinheiro nesse país? Os ricos e a classe média, certo? Esses brancos ai. São eles que controlam as empresas, a economia e nos barram os empregos ou então nos oferecem os piores serviços. Quando os caras assaltam um banco é um modo de compensar a sacanagem feita com os pobres, com os pretos. Isso é compensação. Isso é justiça. Por vias tortas, mas é justiça.

- Mas ai os caras distribuem a grana no morro? Duvido!

- Fazem um churrasco, uma festa ai e um baile funk pra geral relaxar. Compram remédios ai pra quem precisa, fortelece uns cimento, uns tijojo pro cara levantar um barraco...

- E isso é compensação? Isso significa estender a nossa miséria. Não acho que esse seja o caminho. Não mesmo. Devíamos era pensar em nos organizar, essa seria a via mais certa no meu ver.

- Você vai querer nos organizar agora? Ai, na boa neguinho, gosto a pampa de tu mas pra cima de moi não. A gente ta cansado de promessa, de gente que chega com soluções prontas, querendo mandar. Pensam que a gente é marionete. Não rola não.

- Mas não quero liderar nada. Quer dizer, quero ajudar com que aprendi cara. Afinal, me formei na universidade devido as contribuições de pessoas como você. Sinto isso como um dever, um retorno.

- Tu vai voltar a morar aqui? Não vai, é certo. Vai querer organizar o morro pela internet. Ai é fácil, é molinho. Tipo a milícia, controlando tudo do escritório deles.

- Bem.. ainda não sei bem como fazer isso eu acho que...

- E ai quando os canas chegarem a gente manda um email pra tu resolver nossos problemas. Ta ligado? É complicado isso irmão... não tem rolo não.

- Mas cara, na história do movimento negro tem uma série de exemplos que...

- já te falei cara. (Diz com uma certa raiva). Pra gente aqui não tem movimento negro nenhum. O que tem é um monte de preto e preta se ferrando. E monte de paraíba também, ta ligado? Não quero saber de representante de movimento negro aqui não, com roupinha africana e falando bonito. Quero saber do futuro dos meus filhos, dos meus moleque.

- Mas os caras estão tentando mudar isso em várias esferas. Já temos até uma secretaria especial pra fazer políticas e uma série de ações no sentido de....

- Tudo bem, mas cadê as políticas? Não vi nenhuma aqui ainda.

- São políticas em diversas esferas e que irão atingir a nossa população aos poucos. Tipos as cotas, por exemplo...

- Cara, me fala uma coisa. Como eu posso conseguir a cota se nem o segundo grau eu terminei? Cumé que tu vai falar de cota pros moleques ai que nem estão indo pra escola, entendeu? Só negro rico é que vai ser beneficiado por isso.

- Não é bem isso não. Reconheço que somente os negros que terminaram o segundo grau que irão usufruir deste tipo de política e que os outros terão que esperar um pouco mais.

- Esperar até morrer pelo polícia ou por outros bandidos você quer dizer..

- Sei que é difícil, mas também não é possível fazer tudo...

- Ai neguinho, legal tuas palavras bonitinhas ai de políticas e tal, mas isso ta longe da minha realidade, ta ligado no bagulho? Tomara que esse tal de movimento negro se toque e tente trabalhar mais pelos negros que não tem como acessar cotas.

- Compreendo seu desapontamento. De verdade. Toda transformação social depende do tempo, mesmo as revoluções. Te garanto que avançamos muito, porém temos ainda desafios imensos. Os resultados das cotas só irão aparecer nas gerações seguintes, quando ai veremos mais médicos, engenheiros, arquitetos e apresentadores de televisão negros. Isso tudo criará uma imagem positiva do nosso grupo fazendo com que mais e mais jovens queiram fazer faculdade. São mudanças de médio e longo prazo.

- Pois é mano. Espero que esse tempo venha logo porque a revolução que tenho visto aqui é a do crack e ele ta matando mais do que a vida dessa molecada ai. Ta matando é a esperança da gente, de todo mundo, ta ligado?

- Sei sei... temos que atuar no sentido de mudar isso.

- Mas ai, vamos falar de outra coisa. E o Flamengo hein? Que timinho de merda...