segunda-feira, 5 de dezembro de 2011


NEGRÍCIA
Por Marcio André dos Santos
* Na imagem, Aline Valentim, amiga-irmã cuja imagem inspirou o poema. 


Deitada no chão fazia-se chão, negrícia
Negra delícia... Epá, peralá com a malícia! 
É tecitura do infinito, forrou o céu
Um círculo circundada em cores (Quantos sóis habitam o amarelo meu Deus??!!)
Leveza dos pés, paisagem de almas


Teu corpo é puro firmamento
Abrigando galáxias, amassando o barro que a gente pisa
E nem vê, nem nota, nem surpreende, nem sente?
Quão inigualável és, deveras ser
Gestando estrelas
Dessas que lumiam longe
E nossos olhos quase tocam
Pois que é lonjura demasiada perto


É um baobá inverso, transverso, reconvexo
Transpassa meus versos como quem transpassa o tempo
E inscreve nele todas as letras
Africanamente
Negritando tudo o que balança e dança


Em sons fulanis, bambaras, wolofs
Em bantas miragens de aléns-aqui


Quem olha pensa até que vê
Mas nem está ali
Mora lá
Na curva de algum lugar
No vazio que não é nada
Já que cabe tudo


É uma deusa profanada em encantos
Da pele da cor do Nilo
Uma Nefertite toda fêmea, 
Felina, ferina, felicita
Cheia de tranças nagôs
E purpurinas
E capulanas moçambicanas, angolanas, atlânticas
Irmã-cúmplice da nossa mais
Transcendente esperança.


28/11/2011.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

BacktoBlack ou BacktoWhite Supremacy?



Por Marcio André dos Santos

Em sua segunda edição, o BacktoBlack reuniu uma série de bons músicos negros de estilos tão variados quanto o kora, o r&b, o pop e o blues, sem contar o melhor da música negra brasileira. Parabenizo totalmente a qualidade da produção técnica do evento: exposição de imagens de jovens negros em tamanho gigante, espaço para a exposição de peças e produtos de instituições sociais diversas, inclusive instituições negras. Os patrocinadores do evento (Oi Futuro, Fundação Cultural Palmares, Petrobras, etc) também contavam com stands dentro de um trem especialmente adaptado para tal. Do ponto de vista do quesito qualidade técnica não há o que reclamar, penso.

Porém, do ponto de visto político, o B2B reproduz pari passu uma lógica ainda comum no Brasil no que se refere as “culturas negras”. Concordo que toda cultura é pública por excelência, ou seja, ninguém pode atribuir-se o direito absoluto de privatizar os usos e sentidos de uma dada matriz cultural. Isso significa dizer que um sujeito pertencente a uma nação indígena brasileira, por exemplo, pode e tem todo direito de tocar Bach, de ouvir Fela Kuti e ler os poetas portugueses sem sofrer qualquer constragimento por isso. No entanto, em determinadas circunstâncias não é tão simples “praticar” a cultura do outro como se isso fosse um produto comprado no supermercado. Em outros termos, tem-se um processo de alienação e subalternização quando a cultura do outro é utilizada a fim de fortalecer seja politicamente seja economicamente a hegemonia de um grupo determinado.

Vamos dar os nomes aos bois. No caso do B2B vejo um total uso do “repertório cultural negro-africano” voltado a fortalecer a hegemonia branca corrente no Brasil. Por “repertório cultural negro-africano” entendo um conjunto de expressões artísticas tais como dança, teatro, culinária, cosmologias, filosofias, corporeidades (como a capoeira e a dança afro), fotografia, cinema, universos simbólicos, etc, gestados a partir de matrizes civilizacionais africanas e afro-brasileiras. Em suma: há todo um agenciamento negro nessa produção e que por sua vez carregam histórias ancestrais de lutas, resistências, perdas, ressignificações, recriações, etc. Tal repertório não tem nada a ver com pureza de qualquer espécie e nem necessariamente exclui outras matrizes civilizacionais, já que toda formação cultural forja-se em um diálogo constante com outras formações culturais.

O grande problema existente ai é a apropriação feita em nome e pela eternização da hegemonia branca. O que isso quer dizer? O racismo no Brasil significou e significa além da exclusão social e política da maioria do povo negro, um extraordinário fortalecimento das elites brancas. Isso se expressa no acesso as melhores escolas, as universidades e cursos de excelência, aos melhores serviços sociais, cargos de alto salário... em suma, padrões de vida de brancos e negros diametralmente opostos, mantendo assim o fabuloso “equilíbrio de forças” que tão comumente nos caracteriza. O mito da democracia racial ao longo de todo o século 2o traduzia tais privilégios raciais em um problema meramente social. Ou seja, o problema não era a cor da pele do sujeito e sim seu background social. Esse discurso ainda é feito atualmente, inclusive por intelectuais (brancos) que se notabilizaram pesquisando “culturas negras” e relações raciais.

O BacktoWhiteSupremacy (quem preferir sugiro também BacktoWhiteness, algo como retorno a branquitude... retorno?)surge em um contexto em que tais assimetrais e privilégios vem sendo mais sistematicamente discutidos na sociedade brasileira. Além da contradição que todo o evento expressa, instituições ligadas ao governo federal voltadas a promoção e defesa das culturas negras, como a Fundação Palmares, conferiram total aval institucional e político a este tipo de hegemonia. Capatazes pós-modernos!

Branquitude e esquizofrenia

Sou daqueles que pensam que ser crítico a um determinado tipo evento cultural não é o mesmo que estar ausente. Se fosse assim, teríamos pouquíssimas opções do que fazer, exceto ir a bailes funk e ensaio de escola de samba (me refiro as escolas de samba de ”comunidade”, ok?). Conforme falei acima, além da qualidade técnica do evento todos temos direito de participar. Por esta razão fui no segundo dia para assistir ao show da Erikah Badu. A geografia humana local traduzia perfeitamente minhas suspeitas: cerca de 95% dos presentes eram pessoas brancas de classe média e média alta. O mais esquisito para mim não foi ver pessoas brancas ali - todos somos cidadãos com direito e liberdade de acesso as manifestações culturais!!. O mais esquisito foi ver que pessoas como eu, negras, eram minoritárias em um evento que, literalmente, vendia a “cultura negra” para um público branco. Negros em maioria somente o pessoal da limpeza e da segurança...

As imagens de jovens adultos negros em tamanho gigante enfeitando todo o enorme espaço do show constrastava com a parca presença de nossa gente. Faltou somente aos brancos ter posto perucas de nega maluca como fazem no carnaval para disfarçar a contradição presente... Alias, pra que? Não seria preciso. Nunca foi, definitivamente.

A branquitude, um outro nome para hegemonia branca, diferentemente do que dizem seus teóricos não se escondia e nem precisava fazê-lo ali. Reinava feliz e absoluta na terra do faz-de-conta-que-não-tenho-privilégio-porque-continuarei-fazendo-de-conta-que-não-tenho-cor-para-que-vocês-continuem-perdendo. Uma amiga que foi no último dia me contou que de um lado “todos” os brancos assistiam ao show do Taj Mahal (musico negro que toca blues mas que é consumido aqui pelas classes médias brancas, tal como o reggae jamaicano) e “todos” os negros dançavam ao som do pessoal do viaduto de Madureira. Quando o show do Taj Mahal terminou, os brancos literalmente “invadiram” o espaço hegemonizado (será que cabe esse termo aqui? pergunto (tenso) a mim mesmo...) pelos negros.

Por fim, creio que é hora de uma reflexão mais séria sobre esse tipo de coisa. Entendo perfeitamente que artistas negros ou brancos façam suas produções para pessoas de qualquer grupo social ou racial. É dali que sai seu ganha pão. O que acho politicamente complicado é que um evento coloque no bolso, capitalize e manipule ao bel prazer todo um repertório cultural negro-africano como se isso viesse de “graça” para nós, negros e negras, e ainda por cima com o apoio de uma instituição do governo criada para fortalecer as demandas do povo negro. Qual o papel da Fundação Palmares nisso? Melhor: qual o projeto da FCP? Fortalecer-nos ou enfraquecer-nos? Contribuir para pulverizar o que restou do mito da democracia racial (diga-se de passagem, continua super forte e atuante) ou auxiliar em sua reprodução?

Os produtores do BacktoWhiteSupremacytoWhiteness devem estar felizes com a Fundação Palmares e mais ainda com os recursos captaneados do governo federal.
É hora de termos um Retorno à Negritude comprometido efetivamente com a negritude combativa legada pelos movimentos negros e pelo suor e sangue de nossos ancentrais.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

“Maldição Africana” ou as muitas faces do racismo



Possivelmente estamos presenciando um dos piores momentos da história do Haiti. As conseqüências do terremoto sobre o país são, no mínimo, de dimensões bíblicas. A precária infraestrutura existente e os diversos esforços feitos por haitianos e a comunidade internacional ruíram junto com as edificações. Anos e anos de trabalho duro juntaram-se aos pós dos escombros.

Os mortos estão empilhados nas ruas, espalhando o cheiro da morte e da angústia por toda parte. Covas coletivas foram feitas nas proximidades da capital e a população sobrevivente perambula completamente faminta e atônita. Gangues de desesperados se reorganizam a fim de pilhar qualquer coisa que apareça. O cenário não poderia ser mais caótico. É o horror em sua face mais crua.

Em meio a tanta desgraça eis que jornalistas flagram o cônsul do Haiti no Brasil, um homem branco, dizendo em off que a tragédia que está ocorrendo com o povo haitiano é “boa para o país”. Boa? Será que ouvi bem? E mais: de que tal desgraça deve ser resultado de “macumbas” feitas pelos próprios haitianos. E, como se absurdo não bastasse, afirma que os africanos – todos eles, todos nós – carregam uma “maldição” dentro de si. Na visão do cônsul branco do Haiti nós, homens e mulheres negros, somos o Mal.

A declaração do cônsul tem um nível de gravidade elevadíssimo, absurdo. O racismo subjacente em sua declaração remonta a todo um imaginário propagado por séculos nas culturas ocidentais sobre os africanos e os povos não-brancos de todo o mundo.

A “maldição de Cam” é o mito mais difundido no mundo ocidental contra os africanos, seus valores culturais, simbólicos, civilizacionais. Na Antiguidade era partilhado tanto por europeus quanto por árabes, os primeiros a se beneficiarem com o tráfico de escravos para a região do atual Oriente Médio. Cam teria visto o pai deitado nu, Noé, que lançou sobre ele a maldição de que seus filhos seriam escravos dos seus irmãos e seriam “escuros como a noite”. Dessa maneira tem-se um dos argumentos teológicos da escravização dos africanos ao longo dos tempos e que no Brasil foi amplamente usada pela Igreja Católica a fim de justificar a opressão anti-negro.

A declaração do cônsul George Samuel Antoine reedita este imaginário, absolutamente racista, tosco, imprudente sobre a catástrofe que acomete milhares de haitianos e que, neste exato momento, ainda lutam pela sobrevivência, seja debaixo dos escombros ou implorando comida e água nas ruas.

O Haiti é um país majoritariamente católico. No entanto, as tradições religiosas ancestrais dos africanos desempenham um país importante no imaginário de todos. O Vodum, como o candomblé no Brasil, foi e tem sido um elemento fundamental no sistema de crenças desse povo. Afirmar isso não é o mesmo de avaliar se esta ou aquela prática religiosa é boa ou ruim. Pelo contrário, toda prática religiosa deve ser vista em uma perspectiva que a valorize antropologicamente, ou seja, em sua relevância simbólica e material para os crentes.

Portanto, junto com o racismo explícito na declaração do cônsul, tem-se também um profundo sentimento de intolerância religiosa que não devia se coadunar com nenhuma autoridade.

De maneira irônica ou totalmente criminosa este senhor deixa transparecer o pior do ranço colonialista desumano que alguém nesta posição é capaz. Esse cônsul não representa mais nada. Não é ninguém. É um impostor. O povo do Haiti merece dignidade e respeito, ainda que sob os efeitos dos ditames da natureza.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Condenados da Terra Haiti




Horror, desespero, tragédia. Qualquer uma dessas palavras não dariam conta da imensidão do sofrimento do povo haitiano neste momento. Porto Príncipe é uma capital destruída, completamente assolada pelo caos.

Como amplamente sabido, o Haiti é o país mais pobre das Américas. Tal pobreza sistêmica não pode ser entendida superficialmente. Primeira nação negra a conquistar sua independência na região, o Haiti deu ao mundo um poderoso exemplo histórico de resistência e liberdade. Entretanto, os imperialismos e colonialismos dos países ocidentais sangraram as riquezas e potencialidades desta pequena ilha década após década. Evidentemente que as elites políticas e econômicas haitianas tem grande participação no que o país veio a se transformar: subdesenvolvido, população com altos índices de miserabilidade, desemprego absurdo e eivado de corrupção.

A metáfora utilizada por Frantz Fanon descreve bem a situação do Haiti e de países caribenhos na atualidade. Os condenados da terra amargam ainda uma precária ajuda internacional que vem prometendo minorar a situação de calamidade social total. O racismo tem um papel importante em tudo isso. Os países ricos, majoritariamente de populações brancas e que enriqueceram com o tráfico de escravos africanos, puderam manter suas hegemonias em função da subordinação radical dos países periféricos de populações negras e indígenas. Basta olharmos para a história das relações entre países africanos e comunidade internacional para termos um simples quadro disso. Basicamente o mesmo se dá no caso dos países latino-americanos (Suriname, Colômbia, Nicarágua, etc).

Os terremotos que atingiram a capital não poderiam ser mais atrozes e terríveis. Instituições fundamentais ao funcionamento da vida estão sob escombros: hospitais, escolas, palácios governamentais, embaixadas. A ajuda internacional deverá ser grande a altura da tragédia, caso contrário milhares de haitianos perderão a vida presos em muros e paredes despedaçadas.

Meus profundos sentimentos e solidariedade ao povo haitiano.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Renovacao da Esquerda

A jornalista canadense Naomi Klein concede entrevista a Lucas Mendes do programa Milenio da Globo News sobre os rumos da esquerda na America do Norte. Autora do livro No Logo, Klein tenta argumentar que existe sim saida para o neoliberalismo e o cassino financeiro. Isso depende, claro, de iniciativas e acoes que se contraponham ao modelo economico vigente. Nao deixa de fazer consideracoes em torno do racismo.

sábado, 11 de julho de 2009

Civil Rights Movement e o Legado Cultural de Michael Jackson



Alguns analistas associam a morte de Martin Luther King, Jr. em 1968 com o próprio fim do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. Certamente um exagero. Sua liderança e ativismo foram tão marcantes para a luta dos afro-norte-americanos – com repercussões significativas nos países da América Latina, especialmente no Brasil - que é fácil reduzirmos uma história densa e complexa a uma pessoa. Seja como for Doctor King, como é chamado pelos americanos, foi um ícone da luta pelo fim das barreiras raciais e pela promoção da justiça racial e seu assassinato fez surgir uma nova fase da luta. Um ícone não se produz artificialmente, seja ele dos campos político, literário ou social. É preciso que haja uma combinação entre história pessoal e dedicação integral a uma causa ou luta específica para que um ícone habite o imaginário social. Além disso, é preciso que transformações sociais e/ou culturais sejam produzidas a partir de suas ações ou que sejam fortemente inspiradas por sua trajetória. Tudo isso Dr. King fez.
Porém, não é sobre o ícone do movimento pelos direitos civis que este texto trata e sim sobre o ícone pop music mundial, Michael Jackson, morto recentemente. Vejo uma íntima relação entre estas duas personalidades, ainda que atuassem em esferas diferentes. Que relação é possível estabelecer entre o movimento pelos direitos civis e Michael Jackson? Existiria algum vínculo, alguma conexão entre ambos? Penso que sim.


Black Is Beautiful Para o Mundo


Michael nasceu em 1958, em um período de intensa turbulência racial e auge do movimento pelos direitos civis. Os conflitos entre brancos e negros tomavam as ruas dos grandes centros urbanos, as famosas riots (distúrbio, tumulto, agitação), gerando respostas governamentais e mudanças culturais no comportamento coletivo. Os Jackson Five foram formados no final dos anos 60 e início dos 70, acompanhando a efervescência política da sociedade americana a partir das ondas de protestos contra a Guerra do Vietnam e das vocalizações de outras minorias, como as mulheres e os gays. Joe Jackson, pai e empresário da banda, percebeu que o talento dos filhos poderia ser uma alternativa a vida difícil que levavam como classe trabalhadora negra. Perfeccionista, comandava o grupo com mãos de ferro, chegando até mesmo a espancar e humilhar os filhos caso errassem as coreografias. Os sorrisos das capas dos discos dos Jackson frequentemente ocultavam a dor que os levou ao estrelato.
Minha recepção das músicas dos Jackson Five e de Michael em particular só veio nos idos dos anos 80 e uma das coisas que lembro bem era o visual super descolado dos Jacksons. Todos com cabelo estilo Black Power, calça boca de sino e roupas coloridas e psicodélicas. Antes dos Jacksons outras personalidades negras do mundo da música já faziam a cabeça dos jovens negros, como James Brown, tocado incessantemente nos famosos “bailes blacks” em cidades como Rio de Janeiro, Salvador ou São Paulo. Brown foi um dos grandes responsáveis pela expansão da música negra americana no Brasil e na popularização do estilo Black is Beautiful, movimento cultural de valorização dos traços e herança africanos cuja influência foi marcante para a militância negra brasileira daqueles anos. Olhando retrospectivamente não acho que a imagem dos Jackson tivesse um apelo necessariamente político sobre a juventude negra – e nem era o propósito da banda -, porém com certeza ajudou na sedimentação de uma “cultura de consciência negra” generalizada, para usar o termo do sociólogo Amauri Pereira. Os “bailes blacks” serviam como espaço de aglutinação de jovens negros, ativistas políticos ou não, que vinham dos bairros periféricos das grandes cidades e que geralmente aproveitavam isso para se organizar politicamente. Por esta razão é que curtir e dançar as músicas de um grupo em que todos portavam um visual daqueles, de afirmação da negritude em pleno clima de exaltação da mestiçagem oficial brasileira não pode ser considerado algo fortuito.
O visual dos Jacksons refletia exatamente a ebulição político-cultural daqueles anos. Era o momento dos limites e esgotamento da filosofia da não-violência adotada pelas principais lideranças e organizações negras no âmbito do civil rights movement dos anos 60 e que foi substituída por uma resposta mais enérgica, “revolucionária” e desafiadora frente à persistência das desigualdades raciais e do racismo branco estadudinense. A radicalização do movimento a partir de novas lideranças como Malcolm X, Stokely Carmichael, Ângela Davis, Bobby Seale, Eldridge Cleaver e de organizações como os Panteras Negras, SNCC, CORE, UNIA apontava para a necessidade de mudar o comportamento visual, estético e cultural dos afroamericanos. Desde o Black Renascence (renascimento negro) dos anos 20 e 30 não se via mudança tão abrangente. A adoção de batas africanas, a recusa em alisar ou cortar o cabelo simbolizavam o desejo de se reconectar as tradições ancestrais africanas oprimidas e inviabilizadas pela supremacia branca.
Essa fase mais “radical” do movimento pelos direitos civis significou também um momento de críticas profundas ao capitalismo e a uma adesão ao marxismo por parte de muitos ativistas do Black Power. E contraditoriamente, neste período muito do radicalismo negro se transformou em uma defesa aberta de um tipo de “capitalismo negro”, como na descrição de Marable (2007). Uma das mais importantes conquistas do “tradicional” movimento pelos direitos civis além da equalização formal com os brancos foi às políticas de ação afirmativa em universidades e serviços públicos. Isso contribuiu para o crescimento substantivo de uma classe média negra urbana, com mais autonomia econômica e influência nos meios de comunicação e da política.

O Fenômeno Michael Jackson


Os anos passaram e os estilos musicais e culturais também se transformaram. A chamada “Era Disco” já não exibia as mesmas preocupações de ruptura que a geração musical anterior. Era mais estilizada e “descomprometida”, ainda que tenha mundializado mais fortemente a música negra no mundo. Já em carreira solo Michael Jackson mostrou ao mundo ao que veio. Seu primeiro disco solo Off the Wall de 1979 vendeu mais de 25 milhões de cópias e foi considerado um verdadeiro acontecimento musical já que suas canções permaneceram no alto da lista durante meses. Os álbuns posteriores também se revelaram sucessos de venda. O álbum Thriller de 1983 vendeu mais de 106 milhões de cópias em todo o mundo, sendo considerado um marco da indústria fonográfica. Além de exercer forte influência no mundo da moda e cultura urbana, este álbum inaugurou a era do videoclipe e mudou definitivamente a mídia em torno da divulgação musical. Nos anos 80, perdurava o preconceito racial nas rádios americanas que tocavam rock, voltadas para públicos brancos. Michael foi o primeiro músico negro que tocava na MTV com o videoclipe “Billie Jean”. O guitarrista Eddie Van Halen participou da canção “Beat It” fazendo com que rádios de rock ou rádios de brancos tocassem a música de um artista negro. Fato inédito.
Não preciso sublinhar o que isso tem de político. Michael não era e jamais pretendeu ser um porta-voz dos afro-americanos. Não era um ativista político da maneira em que comumente se compreende este termo. Muitos de nós nos perguntávamos o que se passava pela cabeça do gênio da pop music ao fazer sucessivas cirurgias no nariz e passar por processos de embranquecimento da pele. Seria mesmo vitiligo? Michael deixou de ser negro? Negou sua “raça” e sua história? É claro que Michael era negro, apesar de todo o esforço das redes midiáticas internacionais em transformá-lo em um “branco honorário”. Michael Jackson foi alguém de ultrapassar as barreiras e limites de seu tempo como ninguém. Inventou e sofisticou um estilo musical e conseguiu conectar gerações e pessoas do mundo inteiro, de todas as raças, etnias, religiões e classes sociais possíveis. É exatamente isso que faz de um ícone, ícone. É a capacidade de criar uma linguagem global em que todos se identifiquem e espelhem.

Outros Matizes do Político

O legado musical de Michael Jackson tem uma dimensão política incontestável. Contraditoriamente, tal legado tem íntimas associações com a indústria cultural e com o imperialismo cultural norte-americano que é perfeitamente perceptível em qualquer parte do mundo. Porém, este legado expressa a força e a capacidade de transpor barreiras de vários tipos, em especial as barreiras raciais. Jovens negros, brancos, asiáticos, latinos, de países tão diferentes quanto Japão e Guine Bissau, Porto Rico e Mongólia cresceram ouvindo e dançando as músicas de Michael Jackson e do Jackson Five. De certa maneira, todos pertencemos a esta rede, conectados a esta mesma fonte cultural, direta ou indiretamente. Isso é político. É a política feita com outros matizes. Este tipo de política pode não ter tido nenhum tipo de impacto direto na redução do racismo anti-negro, mas influenciou culturalmente aqueles que formularam e formulam políticas anti-discriminatórias.
No cerimonial fúnebre em sua homenagem estiveram presentes não somente artistas negros e personalidades, mas também lideranças da comunidade negra americana como o reverendo Al Sharpton e os filhos de Martin Luther King, jr. Todos ressaltavam a importância de Michael para a comunidade negra e sua relevância e influência para além desta. (Na verdade, Michael participou de campanhas humanitárias, como a famosa campanha de combate a fome na Etiópia, junto com outros 44 músicos americanos e que se tornou uma referência na metade dos anos 80). Antenados com esta conexão, a cobertura ao vivo da CNN exibia as reações dos afroamericanos em várias partes do país, sejam nas ruas ou reunidos nas igrejas negras.
Vivemos em um mundo em que “fenômenos” pops são fabricados na velocidade da luz e cujo “legado” não ultrapassa a capa de uma revista sensacionalista. No entanto, certas figuras são ícones pelo conjunto de sua obra artística e devido a sua irradiação para além de um campo específico de atuação. Também resultam de um determinado contexto cultural e político, não se ancoram em um vazio de sentido. Aquilo que cantam, que vestem, que compõem e que imaginam são expressões do mundo vivido, dos acontecimentos ordinários e extraordinários do dia a dia. Um movimento social nunca se expressa somente por ações políticas stricto senso. É movido também pelo dinamismo cultural do seu tempo. Por esta razão, Michael Jackson faz parte do legado cultural do civil rights movement, do mesmo modo que a história política dos afro-americanos tem em Michael um de seus mais criativos porta-vozes. Nos Estados Unidos e no mundo. Independente das limitações, bizarrices e contradições do homem Michael, ficará a lembrança de um gênio da música.

Referências:

Marable, Manning. Race, Reform, and Rebellious: The Second Reconstruction and Beyond in Black America, 1945-2006. 3a Edition. University Press of Mississipi. 2007.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Choque de Ordem ou Choque Racial? Qual Diferença?



A Polícia Militar do Rio de Janeiro é especializada em brutalidade, como todos sabem. Quando a população “alvo” são sem-tetos, desempregados e, sobretudo negros, ai é que sua fúria colonial vem à tona com toda força. Foi o que ocorreu na semana passada no centro do Rio. Seguindo determinação da juíza Claudia Neiva da 14ª Vara Federal Civil, a PM partiu para cima dos sem-tetos e de estudantes universitários com violência máxima, como se essas pessoas fossem marginais e não vítimas da marginalização sociorracial sofrida sistematicamente ao longo dos anos.



O tal “Choque de Ordem” do governo Eduardo Paes (apoiado pelo governo federal e estadual) vem se mostrando uma verdadeira limpeza étnica no centro da cidade. O governo federal havia prometido transformar prédios da União (como aquele ocupado do INSS) em moradias populares para famílias de baixa renda do centro do Rio. A ação das próprias forças estatais mostram que tal promessa carece de seriedade. Parece mais historinha pra boi dormir...



Pelas imagens feitas pelo O Globo e Jornal O Dia, os “alvos” diretos de tal violência são pessoas idosas, adultos, mulheres e crianças recém nascidas, praticamente todos negros. Tal coincidência não é fortuita. A história urbana do Rio de Janeiro mostra que os “choques de ordem” sempre estiveram voltados ao cerceamento, criminalização e paralisia política dos segmentos marginalizados. Fundamentalmente com a intenção de garantir mais espaços (imobiliários, comercias, etc) para setores das classes médias e altas, compostas em sua imensa maioria por brancos. Conseqüentemente, o “Choque de Ordem” em curso nada mais é do que a tradução contemporânea da ordem racial do passado, ou seja, manter populações pobres e negras no seu “devido lugar”: fora de condições mínimas de cidadanização. Lembremos o ensaio técnico recente dessa brutalidade, a “Operação Rio”, cujos resultados foram a expulsão pura e simples de moradores de rua e outros “indesejados”.